A hora das caretas
| A hora das caretas |
O desenvolvimento de robôs com capacidade para interpretar e reproduzir expressões e emoções humanas abre a perspetiva de lhes arranjar trabalho como enfermeiros, assistentes, empregados de mesa... O professor Henrik Scharfe olha à sua volta, sorridente. Tem o braço pousado sobre o ombro de uma cópia exata de si mesmo; um homem de meia idade, de cabelo grisalho e ar afável, talvez um pouco mais magro mas com o mesmo fato impecável e um sorriso enigmático a animar-lhe o rosto. Um dos dois não é humano. Scharfe, que dirige o Centro de Epistemologia Mediada por Computador da Universidade de Aalborg (Dinamarca), confessa sentir-se como “alguém que vive em dois corpos”. O facto é que há quase dois anos que desfruta da companhia doGeminoid-DK, o seu clone robótico (http://ow.ly/9Ytjk). Estas máquinas, conhecidas pelo nome de “geminoides”, foram concebidas pelo investigador japonês Hiroshi Ishiguro, que as dotou de uma aparência humana surpreendentemente realista. Mas não é só isso. O Geminoid-DK não se limitou a “roubar” a Scharfe o aspeto: é também capaz de reproduzir as suas expressões faciais, mesmo as mais íntimas e pessoais. A ideia é que uma face tão realista e perturbadora permita aprofundar o estudo da expressividade humana e a nossa interação com os robôs (http://www.geminoid.dk). As expressões do rosto constituem a linguagem universal das emoções. De cada vez que interagimos com outras pessoas, o cérebro processa grande quantidade de pequenas pistas faciais que nos ajudam a conhecer o estado de espírito ou as intenções dos nossos interlocutores. Sem termos consciência disso, essa informação exerce uma profunda influência nas relações sociais. Dotar os androides desse tipo de expressividade poderá constituir um excelente mecanismo para esfumar a fronteira entre seres humanos e máquinas. Macacos de imitação Paul Ekman, autor de um trabalho sobre a fisiologia da emoção, dedicou a sua vida ao estudo dos movimentos da musculatura facial. Os trabalhos deste psicólogo norte-americano demonstram que a relação entre as expressões espontâneas do rosto e as emoções é muito precisa. As configurações que as nossas feições adotam correspondem, de forma direta, a diferentes sentimentos. Além disso, são universais. Isso significa que as interpretamos da mesma forma, independentemente das características do nosso rosto. Longe de possuir emoções próprias, a maioria dos atuais androides só se apercebe do que os rodeia através de complexos sistemas de captação de imagens. Por exemplo, oGeminoid-DK, que é incapaz de reproduzir gestos sem um modelo, possui na memória uma base de dados com sequências pré-programadas, o que lhe permite identificar quais as expressões que estão a produzir-se, isto é: basicamente, imita uma pessoa que está a ser gravada em tempo real. Assim, se o modelo aperta os lábios, o geminóide produz uma cópia exata do movimento da boca. Scharfe acredita que, num futuro não muito longínquo, vamos conviver com diversos tipos de tecnologias interativas que irão saturar a nossa vida pessoal, mais ou menos como acontece agora com os computadores, sem os quais já não conseguimos trabalhar. A verdade é que parece encantado por partilhar a sua existência com um robô. “Passo muitas horas com ele”, afirma. “Quero compreender os limites da nossa relação com os androides e o que podemos fazer para conseguir melhorá-los.” De facto, os robôs já revolucionaram várias facetas do nosso mundo. Ainda são pouco visíveis, mas a verdade é que estão por toda a parte e chegaram para ficar. Trabalham, de forma incansável, nas cadeias de montagem da indústria automóvel, ajudam os cirurgiões nas operações, exploram o espaço... Todavia, quando lhes abrirmos as portas das nossas casas, terão acesso a aspetos mais privados da nossa existência. Nessa altura, iremos conviver com eles e deixá-los a cuidar dos nossos filhos, satisfarão as necessidades dos idosos e serão encarregados de muitas tarefas domésticas, como cozinhar ou separar e levar o lixo. Tudo isso implicará, inevitavelmente, o desenvolvimento de importantes relações empáticas, semelhantes, por exemplo, às que mantemos com os animais de estimação. As emoções estão, efetivamente, na base do mecanismo que nos impele a dar os bons dias ao nosso cão, e fundamentarão também a relação de confiança que estabelecermos com os androides. Contudo, por que razão deixaríamos as máquinas invadir desse modo o nosso espaço? Provavelmente, devido ao envelhecimento progressivo da população. Com efeito, qualquer tecnologia que permita proporcionar cuidados à terceira idade, de forma eficiente, transformar-se-á, ao longo das próximas décadas, em algo de essencial. O projeto dos geminoides é apenas um dos vários que procuram dotar de rosto, gestos e expressões humanas os nossos cibercompanheiros do futuro. Em 2008, o Instituto Tecnológico do Massachusetts (MIT) apresentou o Nexi, um robô emotivo que consegue dar a mão, pestanejar, erguer as sobrancelhas e encolher os ombros. Tem visão tridimensional e apercebe-se, através de sensores, quando lhe tocam. Cynthia Breazeal, a sua autora (http://web.media.mit.edu/~cynthiab), pretende “criar robôs que sejam amistosos com as pessoas, como o célebre C3PO de A Guerra das Estrelas”. Além disso, o Nexi consegue manter uma conversa fluida. Tem programadas na memória as expressões e os gestos que deve reproduzir em cada situação. Com base nas reações e na linguagem do interlocutor, adapta-se ao contexto e reage corretamente. Embora a sua capacidade de ação fique limitada aos dados que contém, consegue manter diálogos simples, mas dinâmicos. Na União Europeia, o projeto LIREC, que junta universidades, centros de investigação e empresas privadas, pretende também explorar as relações entre pessoas e androides. Peter McOwan, professor da Escola de Engenharia Eletrónica e Ciências da Computação da Universidade de Londres, coordena uma investigação integrada na iniciativa. Na sua opinião, “os robôs vão desempenhar importantes funções na nossa vida quotidiana”. O projeto que dirige consiste no desenvolvimento de um programa informático, baseado na biologia, que permitirá aos androides interagir connosco de forma mais natural. Assim, as máquinas terão de aprender a compreender desde o conceito de espaço pessoal até ao modo de reagir perante uma emoção manifesta, como a da felicidade. O Emys é, por agora, o primeiro grande avanço obtido pelo LIREC. Concebido na Universidade Tecnológica de Varsóvia, começou por ser uma simples cabeça robotizada, equipada com câmaras, antes de se transformar num rosto capaz de manifestar emoções. A testa possui três zonas de movimento independentes e, embora a face não seja exatamente semelhante à nossa, consegue mostrar nove tipos de emoções diferentes, que vão da raiva à surpresa. É isso que o faz parecer quase humano. Contudo, muitas pessoas consideram essa capacidade expressiva bastante inquietante. Pinóquio 3.0 Nesse sentido, o mais perturbador dos androides expressivos é, possivelmente, o japonês Affetto (http://ow.ly/9Yznk). Concebido por cientistas da Universidade de Osaka, o engenho procura reproduzir o comportamento de um menino de dois anos. O aspeto não é muito diferente de um brinquedo, mas exibe uma desconcertante expressividade facial. Minoru Asada, professor do Departamento de Engenharia Mecânica para Maquinaria Controlada por Computador daquela instituição, foi responsável pelo seu desenvolvimento e está convencido de ter criado uma ferramenta excecional. “Proporcionar esta capacidade aos robôs permite que nos relacionemos com eles de forma mais natural. Gostaríamos que fossem mais espertos. No entanto, ainda não sabemos como consegui-lo, pois a origem da nossa inteligência continua a ser um mistério”, explica. E acrescenta: “Foi isso que nos levou a analisar o comportamento dos lactantes e a reproduzir o seu comportamento nos nossos androides. Desse modo, podemos estudar com maior eficácia os mecanismos de desenvolvimento social.” Asada acredita que a sua tecnologia poderá ser muito útil no campo da psicologia. “Os robôs vão ajudar-nos de duas maneiras. Por um lado, podemos utilizá-los para experiências sociais. Por outro, são sujeitos capazes de aprender. Para isso, vamos incorporar no software os nossos modelos de desenvolvimento. Através das interações que irão surgir entre o bebé androide e o seu cuidador num ambiente real, verificaremos as nossas hipóteses e estudaremos o comportamento que pensamos que vão adotar.” Antes do Affetto, houve vários humanoides que foram utilizados para testar os modelos de desenvolvimento infantil, mas não tinham um aspeto tão realista. “A empatia é indispensável para a comunicação. Embora não se saiba exatamente como se evocam os sentimentos de simpatia, a expressão facial constitui uma parte importante”, escreveu Asada num artigo publicado na revista Transactions on Autonomous Mental Development. “De todos os canais de comunicação que utilizamos, 55 por cento estão relacionados com o rosto e os seus movimentos, 38% com o tom de voz e apenas 7% com o conteúdo verbal da mensagem. Daí a importância do que estamos a fazer”, esclarece o especialista. Até Ekman ter estudado a fundo os movimentos da musculatura facial humana, pensava-se que a expressividade do rosto era mais uma manifestação da cultura, aprendida desde tenra idade. Fundamentalmente, seria tão pouco significativa do ponto de vista evolutivo como uma pronúncia ou um vocabulário característico de uma zona geográfica. Contudo, Ekman demonstrou que havia sete expressões universais, presentes em todas as culturas do mundo e cuja configuração depende de pistas quase invisíveis: as microexpressões. O facto é que a linguagem facial está cheia de subtilezas. Quase sempre, a nossa cara fala quando ainda não temos consciência disso. Um sorriso franco no momento adequado pode fazer-nos ganhar um amigo ou contribuir para tranquilizar um potencial inimigo. Porém, se se prolongar demasiado ou, pelo contrário, for breve, forçado ou débil, despertará suspeitas, medo ou mesmo a ira dos nossos interlocutores. Uma interpretação errada das expressões (e das emoções que estão por detrás delas) pode conduzir a graves mal-entendidos. Em geral, o erro nasce, precisamente, da dificuldade em reconhecer as referidas microexpressões, que duram apenas a décima-quinta parte de um segundo. “Essas expressões tendem a ser muito intensas e fugazes, e 80% das pessoas nem sequer as veem”, explica Ekman. As microexpressões costumam envolver a totalidade dos músculos do rosto, embora sejam tão subtis e rápidas que podem passar despercebidas. Temos tendência para pensar que sabemos interpretar o que as outras pessoas sentem, mas, por exemplo, é fácil atribuir a um meio sorriso um significado de aprovação, quando pode tratar-se, na realidade, de um sinal de desprezo. Se pudéssemos interpretar as expressões automaticamente e sem margem de erro, conheceríamos a verdade por detrás das palavras e dos atos dos outros. No futuro, é provável que os robôs consigam fazê-lo melhor do que nós, o que abriria a porta a um mundo em que as mentiras seriam detetadas em tempo real e não poderíamos esconder os nossos sentimentos. Seria como uma espécie de realidade aumentada. Nessa caso, a pergunta que se impõe é a seguinte: será desejável saber tudo? J.B. Robôs no hospital A perspetiva de ser atendido por um enfermeiro robô pode parecer inquietante, mas não é utópica. A verdade é que já existem alguns androides com capacidade para desempenhar parcialmente a tarefa. Henrik Scharfe defende que o futuro destes engenhos passa pelo desenvolvimento da sua expressividade facial, pois isso permitiria vê-los mais como pessoas do que como máquinas. Atualmente, estes robôs encarregam-se sobretudo de prestar assistência a pessoas com mobilidade reduzida. É o caso do japonês Riba II, desenvolvido pela Riken e pela Tokai, que consegue pegar delicadamente e transportar nos seus braços doentes com um peso de até 80 quilos. Foi dotado de um rosto afável, semelhante ao de um urso panda, para não causar apreensão. No outro extremo, temos os robôs hiper-realistas que são utilizados em alguns centros de formação clínica. As máquinas agitam-se, olham e gritam com os médicos como os doentes verdadeiros. |

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